A ALEMANHA DO SÉCULO XVIII ENQUANTO CULTURA EMERGENTE

 

Georg Otte - UFMG

 

 

As discussões dos últimos anos em torno dos conceitos de ‘cultura’ e ‘nação’, principalmente na esteira dos Estudos Culturais, serviram, entre outras coisas, a denunciar a polarização entre os países do Hemisfério Norte e Sul, entre países hegemônicos e periféricos. Evidentemente, os termos Norte e Sul não devem ser tomados no seu sentido estritamente geográfico; trata-se de designações “culturais” que nem sempre coincidem com o mapa mundi, sendo mais ou menos tão imprecisas quanto os adjetivos ‘ocidental’ e ‘oriental’, que apontam muito mais para conteúdos ideológicos do que geográficos. Na referida polarização, a Austrália e a Nova Zelândia são países hegemônicos, apesar de se localizarem no “extremo oriente” e no “extremo sul”, ao mesmo tempo, e apesar de serem, geograficamente falando, periféricos.

A oposição entre a geografia física e as convenções lingüísticas, entre o físico por um lado e o cultural por outro, podem ser estendidas ao próprio colonialismo, que marca as relações Norte–Sul: há a colonização física, a povoação de um território e seu cultivo por colonos, mas há também o colonialismo propriamente dito, enquanto programa político com suas conseqüências nefastas para as culturas nativas.

No caso da América Latina, não eram as culturas fisicamente reprimidas, ou seja, os índios que se rebelaram contra a metrópole, ao ponto de ameaçarem o poder desta última. Era uma oligarquia, em sua maior parte “do mesmo sangue” do próprio colonizador, que se levantou contra o centro para afirmar sua autonomia.

Certamente há aqui uma diferença decisiva entre o Brasil e a Índia, por exemplo. Nesta última, o movimento de independência se baseava numa oposição étnica que facilmente identificava os adversários. A cultura indiana – ou melhor: as culturas em território indiano – tinham sobrevivido ao colonialismo inglês, podendo apoiar-se em tradições e, principalmente, em línguas e literaturas próprias. Uma vez que as etnias haviam preservado uma certa integridade e uma vez que a mestiçagem era restrita, as fronteiras culturaiseram claramente demarcadas pelas origens étnicas. Havia a cultura “branca” e a cultura indiana que tinha uma consciência muito clara de suas raízes.

No Brasil, essa consciência era uma coisa a ser criada. Para afirmar sua identidade, a oligarquia da independência tinha que afirmar sua alteridade cultural e negar sua descendência étnica. Na literatura, surgiram os mitos românticos de fundação e, com eles, a transferência do imaginário europeu para o índio, transferiu-se uma identidade cultural européia a uma outra etnia, que, apesar de fisicamente marginalizada, era glorificada como fundadora de uma nova nação. Essa projeção do europeu no nativo permitiu aos novos senhores brasileiros continuarem iguais e afirmar-se como diferentes ao mesmo tempo.

Cabe acrescentar que, paradoxalmente, a própria glorificação do índio na literatura era uma invenção européia, que começou pelo “bom selvagem” de Rousseau e passou pelos romances indigenistas de Chateaubriand. De certa forma, a Europa tinha preparado o terreno para que ela mesma pudesse ser questionada pelos autores brasileiros, que, por assim dizer, tinham a vantagem de campo. O índio, sendo o nativo da terra brasileira, nada mais óbvio do que adotá-lo como precursor da cultura brasileira. Mais uma vez, o fato físico – a questão do território – ganha status de cultura para servir de álibi de uma nova identidade; lembramos aqui a origem latina de álibi, palavra que, de acordo com o dicionário Aurélio, significa ‘noutro lugar’.

Não é por acaso que os dois precursores citados da literatura indigenista eram franceses. Além de desfrutar o maior prestígio cultural da Europa na época, a literatura francesa oferecia mais uma opção de independência cultural. Da mesma maneira que o índio foi escolhido como precursor étnico do brasileiro, a França passou a servir aos escritores brasileiros de modelo literário e cultural. As duas identidades emprestadas preenchiam uma função muito importante, isto é, mostrar à antiga metrópole que, apesar de falar a mesma língua, o Brasil era tudo menos uma colônia portuguesa.

Outro empréstimo feito na França é o positivismo. Tanto no Brasil como no México, por exemplo, o século XIX é marcado por uma verdadeira francomania que se estendeu até o século XX. Se essa orientação pela França se explica, por um lado, pelo alto prestígio cultural desse país, outro motivo era de preencher o vácuo deixado pelo colonizador. Dito de outra maneira: uma vez que o colonizador português tinha que ser apagado como precursor cultural, o Brasil, para afirmar sua independência, optou por uma terceira cultura “insuspeita” quando importou o positivismo como paradigma científico e o liberalismo como ideal político. O mero ato de optar podia ser visto como um sinal de independência.

Resumindo:

1.      a identidade de uma nação não é um fato natural, porém resultado de uma escolha – uma escolha feita pelos novos senhores;

2.      o fenômeno que poderia ser chamado de “identidade emprestada” faz parte dessa possibilidade de escolha;

3.      surge uma espécie de autocolonização que pode ganhar um aspecto tão autoritário quanto a colonização original.

 

Comparar a Alemanha com o Brasil pode ser visto como um empreendimento não muito óbvio à primeira vista, principalmente quando se leva em conta o cenário atual no qual a Alemanha ocupa uma posição claramente hegemônica, com conseqüências diretas para o Brasil. No entanto, basta voltar para o século XVIII para descobrir que a questão da identidade nacional já apresentou, para a Alemanha, características semelhantes às do Brasil ou de outras ex-colônias.

É mais uma vez a França que ocupa um lugar decisivo também no caso da Alemanha, desempenhando, porém, um papel mais ambíguo. Até o final do século XVIII, a França nunca chegou a ocupar militarmente a Alemanha ou a explorá-la economicamente. Todavia, a já mencionada posição cultural da França na Europa era tão forte que todos os príncipes e duques alemães procuraram imitá-la no seu próprio território, a começar pela construção de uma versão provinciana do castelo de Versalhes. A colonização cultural da Alemanha pela França era resultado de uma autocolonização da aristocracia alemã, que, aliás, desprezava a língua alemã como coisa do povão e dava preferência ao francês.

Era fácil, portanto, identificar a aristocracia alemã com a cultura francesa, considerar o opressor social ao mesmo tempo como colonizador cultural. Conseqüentemente, a crítica às desigualdades sociais facilmente se misturava com a crítica à predominância francesa. Nas equações aristocrata = francês e burguês = alemão entrava ainda outro elemento cultural, que era a questão da moralidade. Se a nobreza alemã era acusada de decadência moral e se essa mesma nobreza alemã imitava a francesa, sua imoralidade tinha que ter, seguindo essa lógica, um vínculo com a influência do vizinho. À suposta frivolidade francesa, Lessing, o protagonista do Iluminismo alemão, opunha a seriedade moral do burguês alemão.

O grande objetivo de Lessing era a criação de um teatro nacional alemão. Em seus ensaios intituladas Dramaturgia de Hamburgo, que tratam da fundação e do fracasso do Teatro Nacional Alemão em Hamburgo, ele desenvolve, entre outras coisas, a teoria da tragédia burguesa (Bürgerliches Trauerspiel), lançando ataques ferozes contra a tragédia clássica francesa e procurando mostrar que os rígidos princípios dramatúrgicos de Corneille e Racine eram resultado de uma má interpretação da Poética de Aristóteles.

A crítica à tragédia francesa e seus fundamentos poetológicos, todavia, era desmentida pela prática do Teatro Nacional de Hamburgo: as peças francesas representavam mais ou menos o dobro das alemãs. E se Lessing atacava os clássicos franceses, ele elogiava ao mesmo tempo seu contemporâneo Diderot, que, com sua peça Le père de famille, teria fornecido o modelo para a tragédia burguesa. O problema do Teatro Nacional Alemão não era seu repertório francês, porém a falta de apoio financeiro e, como Lessing lamenta, a não-existência de uma nação alemã.

As críticas de Lessing são retomadas por Herder, que, nos seus escritos Von deutscher Art und Kunst (algo como “Do caráter e da arte alemães”), se vale da mesma argumentação acusando os autores franceses de terem deturpado o modelo grego. Apesar de não aderir aos ideais iluministas de Lessing, Herder adota a mesma postura no esforço de fundar uma identidade cultural e literária alemã.

Curiosamente, Herder, além de seguir a argumentação de Lessing, o acompanha ainda em sua proposta de adotar Shakespeare como modelo para a literatura alemã, sendo que sua primeira qualidade parece ser a de não ser francês. Os escritos dos dois autores marcam o início de uma verdadeira shakespearomania que perpassa todos os quatro grandes movimentos desse início de uma literatura nacional alemã. Do Iluminismo até o Romantismo, Shakespeare é homenageado e glorificado em saraus literários e ensaios antológicos.

Não faltavam argumentos pseudo-étnicos e pan-germânicos para justificar a proximidade do maior poeta inglês com os alemães. O entusiasmo pelo teatro shakespeariano, porém, tinha também um caráter negativo, no sentido de servir como arma contra o rigor dos franceses. Shakespeare não apenas ignorava as leis do teatro clássico, mas oferecia ao mesmo tempo a possibilidade de se fazer um teatro mais autêntico, considerado mais idêntico com a cultura alemã. Se o teatro francês era aristocrático e distante, o de Shakespeare era popular e próximo.

O que muitos não sabiam – ou melhor: não admitiam – era que o impulso anti-aristocrático vinha da própria França. Quando Rousseau acusava a sociedade de “corromper” o homem, ele acusava, antes de mais nada, a sociedade francesa. A crítica às conquistas da civilização humana era, em primeiro lugar, uma crítica à sociedade que tinha a fama de ser a mais “civilizada”, isto é, a mais alienada da época. Uma vez que os alemães, desprezados, até então, como bárbaros, eram menos civilizados, eles eram também mais próximos ao ideal rousseaueano.

Há mais dois fatores decisivos para a busca de uma identidade alemã, ambos de origem francesa: a teoria do clima (Montesquieu) e a filosofia da história (Voltaire). Se a primeira justificava as diferenças culturais entre os povos pelas diferenças das condições naturais, a segunda questionou a idéia de um caráter nacional fixo, sendo que esse caráter mudava de acordo com as vicissitudes da história. Poderíamos acrescentar um terceiro ponto, devedor dos dois primeiros, ou seja, o postulado da tolerância, o postulado de se aceitar a cultura do Outro.

Contrariando a imagem, tão difundida em tempos pós-modernos, de um Iluminismo universalista e nivelador, os philosophes franceses se revelam antes como guardiãs da différance, fornecendo tanto aos brasileiros quanto aos alemães argumentos preciosos para afirmarem sua alteridade. Não se trata de fazer, aqui, a apologia do Iluminismo, cujas falhas já foram denunciadas pelo próprio Herder, que apontava para os limites de qualquer comparação cultural. Mas a rejeição sumária do Iluminismo, tão em moda atualmente, precisaria ser substituída por uma argumentação diferenciada.

Procurei mostrar, através da minha comunicação, que a afirmação de uma identidade própria – ou, como diriam os iluministas, a emancipação da predominância de outra cultura – muitas vezes passa por um processo de substituição do autoritarismo antigo por autoridades novas. O empréstimo que os autores alemães fizeram no teatro shakespeareano é apenas um exemplo por um processo que mostra a necessidade de se criar novos modelos na luta por uma nova identidade.

Aliás, trata-se de um processo muito próximo para nós, participantes da vida acadêmica, uma vez que a adoção de determinadas correntes teóricas nem sempre acontece de maneira crítica. É o caso também dos Estudos Culturais que, por um lado, lutam contra o colonialismo cultural de hoje, mas que parecem colonizar ao mesmo tempo a cabeça de muitas pessoas. Ao meu ver, não se trata da questão de adotar ou não os Estudos Culturais como modelo teórico, mas, retomando uma tradição iluminista, de fazer um uso crítico deles.